As Nações Unidas vivem uma grave crise financeira e de credibilidade, mas, na visão brasileira, um mundo sem ONU é um desastre completo
Por Daniela Chiaretti

Leo Pasvolsky era baixo e gorducho. Costumava dizer que talvez fosse mais fácil rolar do que andar. Recebeu apelidos hoje inaceitáveis-o chefe o chamava de “Frei Tuck”, o nome do religioso balofo de Robin Hood, outros diziam que era “o terceiro dos Três Porquinhos”. Jornalista e economista, nascera em uma família judia e anticzarista sob o Império Russo. Tinha 12 anos quando os pais decidiram deixar a Rússia e levar todos aos Estados Unidos. Na Universidade de Columbia estudou ciências políticas e gabava-se de ter debatido com Leon Trotski durante sua estadia em Nova York. Mas, se o jovem Leo era otimista sobre a Revolução Russa, o tempo foi amargando suas convicções. Morreu em Washington, de um ataque cardíaco, aos 60 anos. Em seu obituário, o New York Times escreveu: “Redigiu a Carta da Organização Mundial”.
A este homem que nasceu russo em território hoje ucraniano se atribui a redação da Carta das Nações Unidas assinada em San Francisco, em junho de 1945-em outras palavras, a Constituição da ONU.
Nas décadas de 1930 e 1940, escrevem seus biógrafos, Pasvolsky idealizou uma economia mundial estável e aberta, baseada na cooperação política internacional-algo mais influente do que a Liga das Nações, que falhou em evitar a Segunda Guerra e teve fim em 1946. Pasvolsky havia se juntado à equipe do secretário de Estado Cordell Hull, que durante 12 anos, até 1944, serviu ao presidente Franklin D. Roosevelt.
Na Carta da ONU se estabeleceu a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Secretariado e toda a arquitetura da cooperação internacional do pós-guerra com ênfase na paz, nos direitos humanos e no respeito pela lei internacional. Pasvolsky, conhecido como “um incansável think tank de um homem só”, foi assim descrito pelo diplomata e escritor Richard Holbrooke: “Uma daquelas figuras típicas de Washington -um burocrata tenaz que, focado em um único objetivo, deixou um enorme legado enquanto praticamente desaparecia da história”. Oitenta anos depois, a criação de Pasvolsky agoniza.
O preâmbulo da Carta da ONU resume, no primeiro parágrafo, tudo o que não está acontecendo hoje. “Nós, os povos das Nações Unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra (…) e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem (…) e para tais fins, praticar a tolerância e viver em paz uns com os outros (…), e garantir que a força armada não será usada a não ser no interesse comum.” E segue, lindamente. Hoje, a Carta da ONU está no limbo-na mais generosa interpretação da realidade.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou em janeiro para um “colapso financeiro iminente” da organização, com dívidas recordes de US$ 1,57 bilhão causadas por atrasos e calotes das contribuições obrigatórias dos Estados-membros.
“O congelamento das contribuições dos EUA em 2025, determinado pelo retorno de Donald Trump à Casa Branca, e o atraso do pagamento de outros grandes países, criou uma falta de fundos dramática e sem precedentes em todo o Sistema das Nações Unidas”, escreve na revista Nueva Sociedad o cientista político Giancarlo Summa, que foi diretor de Comunicação da ONU por 15 anos no Brasil, no México e na África Ocidental.
O estrangulamento financeiro atinge em cheio as 50 agências, programas e fundos que surgiram ao redor do secretariado da ONU, com sede em Nova York, e os vários departamentos encarregados de assuntos políticos, econômicos e as missões de paz. “No entanto, a crise mais grave da ONU é política, e neste caso o que parece estar em jogo é sua legitimidade, hoje abertamente questionada pelos EUA, a superpotência mundial que há 80 anos impulsionou com mais força sua criação”, segue Summa. É o criador matando a criatura.
Os Estados Unidos garantem 22% dos recursos da ONU desde 2001. São o maior financiador. O presidente Jimmy Carter foi o último a pagar integralmente e no prazo as cotas dos EUA. A partir dali, nenhum outro governo republicano ou democrata pagou os atrasados- mas nada comparável ao garrote imposto por Trump.
Summa enxerga 2016 como um divisor de águas contemporâneo-foi o ano do Brexit, do impeachment de Dilma Rousseff e da primeira eleição de Trump. “A extrema direita se afirmou como um ator predominante da vida política global com, entre outras coisas, repulsa às organizações internacionais. A crise da ONU é a crise do equilíbrio mundial. Vive-se uma desordem absoluta no mundo e a ONU é uma das vítimas colaterais disso.
A ONU corre um risco existencial. À crise financeira junta-se à crise de credibilidade. “As pessoas se perguntam: mas, afinal, para quê serve? A crise é gravíssima. Espero que não seja terminal”, diz. “Os EUA querem estrangular a ONU, a não ser que faça o que eles querem. A China é hoje o principal financiador do secretariado, com 20% do orçamento. Mas outros grandes países do Sul Global não colocam dinheiro à altura de seu peso econômico e de suas aspirações políticas. Não se tornam atores de primeira importância, apesar de suas potencialidades. Só assim se daria oxigênio à ONU. Não dá para fazer só discurso”, critica.
Na visão brasileira, um mundo sem ONU é um desastre completo, embora não se aposte ainda neste cenário. “Um mundo onde mandam os mais fortes não interessa ao Brasil”, lembra um diplomata. Mas o que se vive hoje? “Uma multipolaridade negativa”, resume.